Vinho Novo em Odres Velhos (1)

Uma resposta a Leandro Quadros sobre Colossenses 2.16

“E ninguém deita vinho novo em odres velhos; do contrário, o vinho novo romperá os odres e se derramará, e os odres se perderão” (Lc 5.37)

Este verso é muito conhecido entre aqueles que leem a Bíblia, no entanto, parece que poucos conseguem avançar ao seu real significado. Discorrendo sobre ele, o respeitadíssimo teólogo Leon Morris, comenta:

“Tanto esta ilustração como a anterior ressaltam a lição de que Jesus não está simplesmente remendando o judaísmo. Está ensinando alguma coisa radicalmente nova.” (Morris, Leon  L. Lucas: introdução e comentário. São Paulo: Vida Nova, 1983, p. 115)

Mas parece ser justamente esse o problema da Igreja Adventista do Sétimo Dia: colocar os princípios da Nova Aliança no formato da Antiga. Um exemplo clássico desse procedimento é a interpretação da doutrina do sábado em Colossenses 2.16 feita pelo senhor Leandro Quadros, a qual será objeto de nossa análise daqui para frente.

Colossenses 2.16 e a Igreja Adventista do Sétimo Dia

“Ninguém, pois, vos julgue pelo comer, ou pelo beber, ou por causa de dias de festa, ou de lua nova, ou de sábados” (Cl 2.16)

A perícope na qual está inserido Colossenses 2.16 sempre causou um mal estar nos movimentos sabatistas, pudera, ela é uma prova esmagadora de que os crentes da Nova Aliança não estão sujeitos à guarda do sábado judaico.

Mas a interpretação sensata de que a imposição do sábado neste verso é condenada pelo apóstolo, conclusão obviamente natural, dada a mera leitura do texto, tem sido ofuscada por malabarismos exegéticos daqueles que obstinadamente insistem em manter o sábado como norma religiosa para os crentes da Nova Aliança.

Desconstruir a interpretação tradicional que a Igreja Cristã manteve durante toda sua história em cima de Colossenses 2.16, isto é, de que Paulo condena aqueles que queriam impor rituais judaicos, inclusive o sábado semanal aos cristãos, não é tarefa nada fácil. O labor é árduo e exige uma boa dose de obstinação e insensatez. É necessário abandonar os princípios basilares da boa hermenêutica e em seu lugar inserir  pressupostos teológicos particulares, levando para dentro do texto elementos a ele estranhos, forçando-o a dizer o que obviamente não diz.

O processo hermenêutico de desconstrução depende, na verdade, da construção de uma nova interpretação. Essa interpretação por sua vez é dependente de alguns pressupostos básicos que elencamos abaixo:

1) Existem duas leis: uma moral e outra cerimonial;

2) Na lei cerimonial existiam alguns dias de festas denominados “sábados”;

3) A lei cerimonial cumpriu-se em Cristo, não está mais em vigor;

4) O sábado semanal faz parte da lei moral do Decálogo, que é eterno;

5) Jesus e os apóstolos, inclusive Paulo, guardaram o sábado semanal.

A lógica própria dessa construção leva à conclusão de que o sábado semanal é eterno e até mesmo Paulo o guardava. Então, como este mesmo Paulo tempos depois viria a  condená-lo como sombra? Impossível, dizem. Portanto, a única alternativa possível deixada dentro da dicotomia adventista é enxergar o termo “sábados” de Colossenses 2.16 como “sábados cerimoniais”.

Confesso que é uma defesa vigorosa para preservar o sábado semanal da contundente condenação de Paulo. Uma defesa vigorosa de uma posição pobre e fraca (Gl 4.10). Ao mesmo tempo em que não nega que Paulo esteja se referindo ao sábado, reinterpreta-o, todavia, de modo completamente diferente, desfigurando e adulterando o verdadeiro sentido do texto.

Entretanto, temos boas razões para acreditar que tais pressupostos, quando analisados em seu devido contexto, não apoiam a lógica adventista. Por exemplo, é necessário provar primeiro que as passagens em que Paulo aparece “guardando” o sábado em Atos seria algum tipo de texto prescritivo deixado por Lucas em relação ao suposto “costume” sabático do apóstolo. Fora isso, a teoria dos “sábados cerimoniais” enfrenta problemas de ordem gramatical, teológica, histórica e até de coerência lógica que mostraremos nos próximos artigos.

Leandro Quadros e Colossenses 2.16

Leandro Quadros é orador e polemista do programa “Na Mira da Verdade”. Ele tem criticado, debatido e polemizado com aqueles que destoam de sua doutrina ou expõem os erros teológicos do adventismo tradicional. Este senhor até mesmo produziu uma resposta em formato de artigo científico publicado na revista Kerygma contra o meu artigo “Adventistas admitem erro na interpretação da lei”.[1] Também há vários artigos do CACP que foram alegadamente refutados por ele, os quais serão respondidos a seu tempo. Por enquanto, me concentrarei apenas na perícope de Colossenses 2.16.

A razão pela qual selecionei primeiro esse tema é que, tempos atrás, ele postou em seu blog um estudo dividido em quatro partes onde faz uma tentativa de defesa sobre o que ele entende ser a expressão “sábados” em Colossenses 2.16 depois que um internauta o desafiou sobre esse texto, possivelmente com materiais do CACP e ICP.

As quatro partes do estudo “Os sábados de Colossenses 2.16”[2] serão analisadas e as ponderações do senhor Leandro Quadros respondidas, parte por parte.

[1] Apesar de não receber pessoalmente a resposta do senhor Leandro Quadros quando publicou seu artigo, ele já foi analisado e está sendo respondido. Diferentemente dele, eu enviarei ao seu e-mail minha tréplica antes de ser publicada.

[2] O link do referido estudo pode ser lido aqui http://novotempo.com/namiradaverdade/os-sabados-de-colossenses-216-parte-1/

Clique aqui e leia o 2° artigo da série

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