Refutando objeções contra a expiação universal

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Uma objeção comum dos calvinistas contra a expiação universal é que, se Cristo pagou o preço por todos, por que nem todos são salvos? A resposta que os próprios calvinistas encontram é que Cristo não pagou o preço por todos, e por isso nem todos são salvos. Os arminianos, sabendo que a explicação de que Cristo não pagou o preço por todos é antibíblica, respondem que a razão pela qual nem todos são salvos é porque é preciso se apropriar da salvação através da fé.

O preço pago por Cristo na cruz proporciona a possibilidade de salvação para todos, o que não haveria caso ele não tivesse pago o preço por nós. Mas é necessário que nós creiamos no que ele fez por nós, para nos apropriarmos pela fé da promessa da vida eterna. A expiação, portanto, é universal, no sentido de que Cristo morreu por todos para disponibilizar salvação a todos, mas nem todos são salvos, porque nem todos creem. Mesmo com Cristo tendo morrido por nós, a fé ainda é completamente necessária para a salvação. Orton Wiley explica isso nas seguintes palavras:

“A expiação é universal. Isto não quer dizer que toda a humanidade será salva incondicionalmente, mas que a oferta sacrificial de Cristo, até certa extensão, atendeu às reivindicações da lei divina, de modo a tornar a salvação possível a todos. A redenção, portanto, é universal ou geral no sentido provisional, mas especial ou condicional em sua aplicação ao indivíduo”[1]

Assim sendo, é verdade que Cristo morreu para a justificação de todos, que a graça de Deus abundou sobre todos e que Ele exerceu misericórdia sobre todos. Contudo, o homem pode rejeitar a graça e recusar-se a crer, o que torna nulo na vida dele o que Cristo fez por ele. Olson fala sobre isso por meio de uma analogia:

“Imagine uma pessoa que é multada por uma corte em mil reais por um mau comportamento e alguém entra e paga a multa. E se a pessoa multada se recusar a aceitar aquele pagamento e insistir que ela mesma pague a multa? A corte irá automaticamente restituir os primeiros mil reais? Provavelmente não. É o risco que a primeira pessoa corre em pagar a multa de seu amigo(a) por ele(a)”[2]

Geisler também usa uma analogia semelhante para chegar ao mesmo ponto:

“Se um benfeitor compra um presente e o oferece livremente a uma pessoa, isso não significa que ela tem de recebê-lo. Igualmente, se Cristo pagou pelos nossos pecados, isso não significa que tenhamos de aceitar o perdão dos pecados pagos com seu sangue”[3]

Olson ainda cita como exemplo a anistia do governo norte-americano aos que fugiram da guerra do Vietnã:

“Apenas um dia após a posse do presidente Jimmy Carter, ele deu prosseguimento à sua promessa de campanha e concedeu perdão total a todos os que resistiram ao recrutamento durante a Guerra do Vietnã ao fugir dos EUA para o Canadá e outros países. O momento em que ele assinou aquela ordem executiva, cada exilado estava livre para retornar aos EUA com a garantia legal de que ele não seria processado. ‘Todos estão perdoados, voltem para casa’, foi a mensagem para cada um deles (…) Ainda que houvesse uma anistia e perdão total, todavia, muitos exilados escolheram permanecer no Canadá ou outros países para os quais eles fugiram. Alguns morreram sem sequer fazer uso da oportunidade de estar em casa com os familiares e amigos novamente. O custoso perdão não lhes fez bem algum, pois ele precisava ser subjetivamente apropriado a fim de ser usufruído objetivamente. Colocando de outra forma, embora o perdão era objetivamente deles, para que pudessem se beneficiar dele, eles precisavam tê-lo aceitado subjetivamente. Muitos não o fizeram”[4]

Da mesma forma que a anistia concedida pelo governo norte-americano precisava ser aceita para ter efeito na vida daquelas pessoas, a expiação precisa ser aceita através da fé por aqueles que desejam ser salvos. É por isso que é a fé que nos justifica (Gl.2:16; Ef.2:8-9; Rm.4:5; Fp.2:9), e não somente o ato da morte de Cristo na cruz. A morte de Cristo possibilita a fé, mas sem a fé não há salvação. A morte de Cristo em nosso lugar não nos salva automaticamente; é preciso se apropriar pela fé dos benefícios dessa expiação.

Geisler também aborda isso, dizendo:

“O pagamento que Cristo fez pelos pecados de toda a humanidade não a salva automaticamente; apenas a tornou passível de ser salva. Ela não aplicou automaticamente a graça salvadora de Deus à vida das pessoas; apenas satisfez a Deus, tornando-o favorável (propício) a eles (Jo 2.2), à espera da fé da parte deles para poderem receber a salvação como dom incondicional de Deus, o que foi tornado possível”[5]

Olson acrescenta:

“Estas objeções presumem que a morte de Cristo, por si só e em qualquer aceitação, automaticamente salva algumas pessoas. Isto não sugere que o arrependimento humano e a fé são supérfluos? Por que Deus exige fé e arrependimento? Os eleitos, presumidamente, são salvos pela cruz antes e à parte de suas respostas ao evangelho”[6]

É por isso que somos salvos a partir de quando cremos, e não a partir de quando Jesus morreu. O fato de Jesus ter morrido nos possibilita a salvação e torna a fé possível, mas, se nos recusarmos a crer, estaremos tão perdidos quanto estávamos antes de crer. Até mesmo os eleitos estavam mortos em seus pecados antes de Cristos os vivificar (Ef.2:1-2), mesmo à luz do fato de que Jesus já tinha morrido por eles. Essa morte só passou a ter valor e aplicação na vida deles a partir de quando eles creram, e se alguém se recusa a crer durante toda a vida não terá essa aplicação por toda a vida.

A consequencia disso é que o que faz com que uma pessoa não seja salva é a resistência dela em crer no que Cristo fez por ela, e não porque Cristo não fez nada por ela. Como disse Paulo César Antunes, “a Bíblia em nenhum lugar afirma que as pessoas se perdem porque Cristo não morreu por elas, mas elas se perdem por causa da incredulidade, por rejeitarem o que Cristo fez na cruz em seu favor”[7].

Por tudo isso, a objeção calvinista de que a expiação universal leva ao universalismo (a crença de que todos serão salvos) é uma falácia. Olson foi preciso quanto a isso quando escreveu:

“Os calvinistas temem que a ênfase humana na universalidade da expiação resulte inexoravelmente em universalismo; se Cristo, na verdade, padeceu os pecados de todas as pessoas, por que é que alguém iria para o inferno? Todos não seriam salvos pela morte expiatória de Cristo? O inferno não seria uma punição redundante? Os arminianos respondem que é exatamente isto que torna o inferno tão trágico – ele é absolutamente desnecessário. As pessoas vão para lá não porque suas punições não foram sofridas por Cristo, mas porque rejeitam a anistia fornecida por Cristo por intermédio da morte substitutiva de Cristo”[8]

[1] WILEY, H. Orton. Christian Theology. Kansas City, Mo.: Beacon Hill, 1941. v. 2, p. 295.

[2] OLSON, Roger. Contra o Calvinismo. Editora Reflexão: 2013, p. 233.

[3] GEISLER, Norman. Eleitos, mas Livres: uma perspectiva equilibrada entre a eleição divina e o livre-arbítrio. Editora Vida: 2001, p. 93.

[4] OLSON, Roger. Contra o Calvinismo. Editora Reflexão: 2013, p. 232.

[5] GEISLER, Norman. Eleitos, mas Livres: uma perspectiva equilibrada entre a eleição divina e o livre-arbítrio. Editora Vida: 2001, p. 99.

[6] OLSON, Roger. Teologia Arminiana: Mitos e Realidades. Editora Reflexão: 2013, p. 289.

[7] ANTUNES, Paulo César. Objeções à Expiação Ilimitada. Disponível em: <http://www.arminianismo.com/index.php/categorias/diversos/artigos/29-paulo-cesar-antunes/586-paulo-cesar-antunes-objecoes-a-expiacao-ilimitada>

[8] OLSON, Roger. Teologia Arminiana: Mitos e Realidades. Editora Reflexão: 2013, p. 84.

Extraído do livro “Calvinismo X Arminianismo: quem está com a razão?”, Biazoli, cedido pela comunidade de arminianos do Facebook

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