Quem são os Filhos de Deus em Gn 6.2?

Viram os filhos de Deus que as filhas dos homens eram formosas; e tomaram para si mulheres de todas as que escolheram. Gênesis 6.2

14º CONGRESSO NACIONAL APOLOGÉTICO “PR.NATANAEL RINALDI”

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A fim de elucidar um texto que a nós nos parece obscuro, uma das regras da hermenêutica sacra recomenda que: “devemos interpretar o texto à luz do contexto”.

Com base nessa recomendação, entendemos que “os filhos de Deus” em Gn 6.2 NÃO SÃO ANJOS, MAS SERES HUMANOS, pelas seguintes razões:

A) Os infratores são seres humanos e o juízo é contra estes;

B) A expressão “tomar uma mulher”, no Antigo Testamento, é um termo técnico para designar um casamento legítimo e não um ato de prostituição ou de uma relação sexual ilícita como querem fazer pensar os adeptos da posição mitológica (Gn 2.21; 6.2; 11.29; 20.2; 21.21; 24.3,4,67; 25.1,20; 26.34; 289; 29.23; 36.2; Ex 2.1; 6.20,23,25). A esse respeito diz Keil: “No versículo 2 se declara que ‘viram os filhos de Deus que as filhas dos homens eram famosas; e tomaram para si mulheres de todas as que escolheram’, qualquer com cuja beleza eles ficaram deslumbrados; e estas esposas lhes deram à luz filhos (vs. 4). Ora, o termo hebraico, laqach ‘ishah, “tomar uma esposa” é uma frase que se mantém através de todo o Antigo Testamento para a relação do matrimônio, estabelecida por Deus na criação, e nunca se aplica a porneia, “prostituição, relação sexual ilícita”. Isto basta para excluir qualquer referência aos anjos. Porque Cristo declara distintivamente que os anjos não podem casar-se (Mt 22.30; Marcos 12.25; em comparação com Lc 20.34).

Sobre esse assunto diz Bruce Waltke: “casaram: literalmente ‘tomaram para si esposas’, referência a casamentos inter-raciais, não a fornicação”. (Gênesis pg 141).

Não há como afirmar pelo contexto que “os filhos de Deus”, em Gn 6.2, sejam anjos. Pois, tanto o texto de Gn 6, quanto os capítulos anteriores e posteriores apontam para seres humanos.

O capítulo quatro de Gênesis trata do nascimento de Caim e Abel; do assassinato de Abel por seu irmão Caim; e das consequências deste ato. Logo em seguida é apresentada a linhagem ímpia de Caim e no final um descendente de Sete, a saber, Enos, a partir do qual tem início o culto público a Deus, com a invocação do seu nome (Gn 4.26).

No capítulo cinco de Gênesis Moises, de uma maneira cuidadosa, apresenta a linhagem piedosa de Sete, linhagem esta marcada pela devoção, reverência, temor e obediência 3 Deus.

Até este ponto, pelo que podemos ver, não há como afirmar que “os filhos de Deus” sejam anjos. O contexto dos dois capítulos não nos oferece um ambiente favorável para essa afirmação. Pois tanto o capítulo quatro quanto o capítulo cinco estão tratando apenas de homens, de seres humanos e não de anjos.

Já, os capítulos 7,8 e 9 estão fora de discussão; pois, como podemos ver, tratam apenas de Noé e sua família e dos animais sendo salvos das águas do dilúvio.

Portanto, resta apenas analisarmos o capítulo de número seis. Pois, todo o texto e o contexto do capítulo 6 fazem referência somente a homens, a seres humanos, como veremos a seguir:

Verso 1 – os homens começaram a se multiplicar sobre a face da terra (homens)

Nasceram-lhes filhas (mulheres)

Verso 2 – Os filhos de Deus viram as “filhas dos homens”.

Verso 3 – A contenda do Espirito do Senhor é com o “homem”;

Porque ele também “é came” (aqui não diz que ele é espírito)

O tempo de vida dos antediluvianos, da proclamação do juízo até o dilúvio seria de 120 anos. Portanto esse juízo é contra o homem, visto que os anjos são imortais. (Lc 20.36)

Verso 5 – Viu o Senhor à maldade “do homem

Verso 6 – O Senhor se arrependeu de haver feito “o homem

Verso 7 – O Senhor prometeu destruir “o homem” que Ele criou

Verso 12 – A terra estava corrompida (Terra = a seres humanos)

Bruce K. Waltke, um dos mais notáveis eruditos do Antigo Testamento, explicita esta mesma opinião em seu comentário de Gênesis:

O conceito de que os anjos tinham relações sexuais com os mortais é extremamente antigo… Contudo não se ajusta ao contexto do dilúvio, visto que o juízo do dilúvio é contra a humanidade (Gn 6.35) e não contra a esfera celestial. Deus especificamente rotula os ofensores em 6.3 de “came” (bashar) “mortal” (na NVI). Esta interpretação também contradiz a afirmação de Jesus de que os anjos não se casam (Mt 22.30, Mz 12.25). Uma coisa é anjos comerem e beberem (ver Gn 19.13}, outra bem diferente é se casarem e reproduzirem”.

Outro argumento em favor de que o texto faz referência ao ser humano e não aos anjos está em que: “Toda came havia corrompido o seu caminho” (carne = pessoas) (Gn 6.12). O texto não diz que os anjos haviam se corrompido, mas que “toda a came”, isto é, os seres humanos haviam corrompido. E, ainda, no versículo seguinte lemos que: “O fim de toda came havia chegado” (Gn 6.13). Veja o leitor que o texto não diz que havia chegado o fim de todos os anjos caídos, mas sim o fim de toda came.

Como podemos ver o protagonista de todo o texto é o homem, o ser humano. Nada se diz acerca dos anjos. Portanto, colocarmos os anjos nesse contexto seria uma violência ao próprio texto bíblico.

(Extraído do livro “Perguntas Difíceis de Responder” Vol 3; Soares, Elias; Editora BeitShalom, Pág. 59, 62)

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