Introdução
Certas pessoas leem a Bíblia com uma ideia preconcebida, e buscam encontrar apoio nela para sustentação de suas posições doutrinárias peculiares, abusando na sua interpretação. Uma dessas passagens que aparentam apoio para os supostos guardadores do sábado e para as diligentes testemunhas de Jeová é Mateus 19.16-22. Estas últimas – as TJs – costumam citar o texto como meio de excluir Jesus da condição de Deus verdadeiro, embora isso se afirme em 1Jo 5.20 “E sabemos que já o Filho de Deus é vindo, e nos deu entendimento para conhecermos o que é verdadeiro; e no que é verdadeiro estamos, isto é, em seu Filho Jesus Cristo. Este é o verdadeiro Deus e a vida eterna”. Mas, perguntam as TJs: Por que Jesus respondeu ao jovem rico que bom é um só que é Deus? Com isso entendem que Jesus se excluiu de ser esse Deus. É o caso de perguntarmos: Jesus é bom? Se a resposta for sim, então é óbvio entendermos que sendo Deus bom e sendo Jesus bom, ele é Deus porque bom só há um que é Deus: (Pai, Filho e Espírito Santo, Mt 28.19). Quem ousaria afirmar que Jesus é mau? Nem mesmo as TJs chegariam a tal ponto, porque cantam louvores a Jesus e não poderiam fazê-lo se afirmassem ser ele mau.
1 – Interpretação dos Guardadores do Sábado
Por outro lado, os supostos guardadores do sábado se valem dessa passagem para afirmar que Jesus recomendou a guarda do sábado, quando ordenou ao jovem que guardasse os mandamentos.
Diz o texto que o jovem rico, que procurou Jesus para indagar o que fazer para herdar a vida eterna, teve como resposta as palavras de Jesus: “guarda os mandamentos”. Essa declaração de Jesus – como dissemos – serve de apoio para os supostos guardadores do sábado admitirem, que para alguém se salvar, deve guardar os dez mandamentos, onde se encontra, no quarto mandamento, a guarda do sábado. Assim – dizem – sem a guarda dos dez mandamentos e particularmente do sábado, ninguém jamais poderá salvar-se.
Ellen Gould White se manifesta da seguinte forma: “A guarda do sábado implica em salvação”. Arrazoam os sabatólatras que Jesus citou cinco mandamentos do decálogo: “Não matarás, não cometerás adultério, não furtarás, não dirás falso testemunho, honra teu pai e tua mãe e amarás o teu próximo como mesmo”. Isso implica em admitir que os demais, fora os citados, estejam incluídos para condição de salvação. Como notamos da resposta de Jesus, ele omitiu propositadamente a guarda do sábado. E podemos ir mais além, em afirmar que nenhuma parte do Novo Testamento se encontra uma só referência que indique mandamento de Jesus ordenando guardar-se o sábado.
O que podemos notar realmente dentro do Novo Testamento é a luta constante de Jesus contra os guardadores do sábado – os judeus religiosos – que chegaram a afirmar que Jesus não procedia de Deus, porque não guardava esse dia: “Então alguns dos fariseus diziam: Este homem não é de Deus; porque não guarda o sábado” (Jo 9.16).
Devemos notar mais, que Jesus não se restringiu em citar mandamentos só do decálogo. Ele citou mandamentos fora do decálogo. Por exemplo: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo” não faz parte do decálogo e sim da lei que Moisés escreveu (Lv .19.18) e “não defraudarás alguém” (Mc 10.19), acha-se em Lv 19.13. Se o fato de Jesus citar cinco mandamentos do decálogo implica em todo o decálogo, dois mandamentos citados por Jesus fora do decálogo implica na guarda da lei de Moisés, consistente dos cinco livros da lei: Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio, que contêm nada menos do que 613 mandamentos. E Paulo foi incisivo com respeito à justificação decorrente da guarda da lei na sua inteireza, afirmando: “Todos aqueles pois, que são das obras da lei, estão debaixo da maldição; pois está escrito: Maldito todo aquele que não permanecer em todas as coisas que estão escritas no livro da lei para fazê-las” (Gl 3.10). Tenhamos presente que o texto é específico: “Maldito todo aquele que não permanecer em todas as coisas que estão no livro da lei para fazê-las“ e não, “Maldito todo aquele que não permanecer em todos os dez mandamentos para fazê-los”. A justificação pela guarda da lei advinha da guarda de 613 mandamentos, e não dos dez mandamentos, como procuram dar a entender os supostos guardadores do Sábado.
2 – Os Mandamentos de Jesus
Reiteradamente encontramos na Bíblia a recomendação de Jesus para guardarmos seus mandamentos. Isso encontramos nas seguintes passagens:
“Se me amardes guardareis os meus mandamentos” (Jo 14.15). “Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda. esse é o que me ama” (Jo 14.21).
“Se guardardes os meus mandamentos, permanecereis no meu amor; do mesmo modo que guardo os mandamentos de meu Pai, e permaneço no seu amor” (Jo 15.10).
“E nisto sabemos que o conhecemos se guardarmos os seus mandamentos“ (1Jo 2.3);
“Nisto conhecemos que amamos os filhos de Deus, quando amamos a Deus e guardamos os seus mandamentos“ (1 Jo 5.3).
3 – O Caráter dos Mandamentos de Jesus
A que Jesus se referia quando falava de mandamentos? Os supostos guardadores do sábado mentalmente entendem que se tratava dos dez mandamentos. Isso porém não é verdade bíblica, pois Jesus foi específico ao falar em mandamentos. Vejamos a que Jesus se referia quando falava de mandamentos:
“Um novo mandamento vos dou: que vos ameis uns aos outros; como eu vos amei a vós, que também vós uns aos outros vos ameis” (Jo 13.34);
“O meu mandamento é este: que vos ameis uns aos outros, assim como eu vos amei”(Jo.15.12);
“O seu mandamento é este: que creiamos no nome de seu Filho Jesus Cristo, e nos amemos uns aos outros, segundo seu mandamento“ (1Jo.3.23);
“E dele temos este mandamento: que quem ama a Deus, ame também seu irmão“ (1Jo. 4.21);
“E agora, senhora, rogo-te, não como escrevendo-te um novo mandamento, mas aquele mesmo que desde o princípio tivemos: que nos amemos uns aos outros“ (2Jo. 5) – o grifo é nosso.
Notou o leitor que nada se fala de guardar o sábado?
4 – O Novo Testamento Repete os Dez Mandamentos?
Não há dúvida de que o Novo Testamento cita mandamentos do Velho Testamento. Cita mandamentos indistintamente de toda a Lei de Moisés, mas não repete o quarto mandamento em nenhum lugar. Façamos uma comparação dos dez mandamentos dentro do Novo Testamento:
VELHO TESTAMENTO NOVO TESTAMENTO
1º mandamento – Ex 20.2,3 At. 14.15
2º mandamento – Ex 20.5,6 1Jo. 5.21
3º mandamento – Ex 20.7 Tg. 5.12
4º mandamento – Ex 20.8-11 Não existe
5º mandamento – Ex 20.12 Ef. 6.1-3
6º mandamento – Ex 20.13 Rm. 13.9
7º mandamento – Ex 20.14 1 Co 6.9,10
8º mandamento – Ex 20.15 Ef. 4.28
9º mandamento – Ex. 20.16 Cl. 3.9
10º mandamento –Ex. 20.17 Ef. 5.3
5 – O Que Diz Paulo?
Paulo reconheceu que seus escritos eram inspirados por Deus, e assim se pronunciou: “Se alguém cuida ser profeta ou espiritual, reconheça que as coisas escrevo são mandamentos do Senhor“ (1 Co 14.37).
E disse mais, que esses mandamentos contidos em suas cartas foram dados pelo Senhor Jesus: “Porque vós bem sabeis que mandamentos vos temos dado pelo Senhor Jesus” (1Ts.4.2).
O apóstolo Paulo foi o maior escritor do Novo Testamento. Ao todo ele escreveu 13 cartas ou epístolas. Uma observação para um leitor atento ao que Paulo escreveu, resultará em descobrir que nem uma só vez Paulo recomendou a guarda do sábado. Pelo contrário, Paulo manifestou dúvida sobre a salvação daqueles que retrocediam na graça com o propósito de guardar a lei, afirmando: “Guardais dias (sábados), e meses (luas novas), e tempos, e anos (festas anuais). Receio de vós, que não haja trabalhado em vão para convosco” (Gl. 4.11,12) “Estai pois firmes na liberdade com que Cristo nos libertou, e não torneis a meter-vos debaixo do jugo da servidão. Eis que eu Paulo, vos digo que, se vos deixardes circuncidar, Cristo de nada vos aproveitará. E de novo protesto a todo o homem, que se deixa circuncidar, que está obrigado a guardar toda lei. Separados estais de Cristo, vós, os que vos justificais pela lei; da graça tendes caído” (Gl.5.1-4). E é digno de nota que Paulo reconheceu que seus escritos eram mandamentos do Senhor, dados pelo próprio Senhor Jesus, por que então essa omissão, considerando que os guardadores do sábado afirmam que a guarda do sábado implica em salvação? E tenhamos presente que Paulo declarou que nunca deixou de anunciar todo o conselho de Deus. Disse ele textualmente: “Porque nunca deixei de vos anunciar todo o conselho de Deus” (At. 20.27).
6 – A Pergunta Feita pelos Supostos Guardadores do Sábado
Frequentemente somos assediados por uma pergunta inquietante para muitos evangélicos: Abrem o livro de Êxodo, no capítulo 20, e começam a fazer as seguintes perguntas, com ar triunfante, como se não fosse o evangélico capaz de respondê-las satisfatoriamente:
Podemos ter outros deuses diante de Deus?
Podemos fazer imagem de escultura?
Podemos tomar o nome de Deus em vão?
Pulam o quarto mandamento de propósito e depois continuam as perguntas:
Podemos desonrar os pais?
Podemos matar?
Podemos adulterar?
Podemos furtar?
Podemos dar falsos testemunhos?
Podemos cobiçar a casa do próximo, sua mulher e outros pertences dele?
E então depois de ouvir nossa resposta afirmando sempre: Não, absolutamente não, eles retornam ao quarto mandamento e perguntam solenemente:
Podemos violar o sábado? Obviamente, aguardam a nossa resposta com um formal não.
Entretanto, biblicamente podemos responder afirmativamente. Sim. Podemos violar o sábado. Isso surpreende os supostos guardadores e indagam: Qual a base bíblica para essa resposta?
Nossa bíblica está em Mt 12.5 que diz: “Ou não tendes lido na lei que, aos sábados, os sacerdotes no templo violam o sábado, e ficam sem culpa?” Os discípulos estavam colhendo espigas num dia de sábado e foram repreendidos pelos fariseus, que os acusaram de fazer o que não era lícito no sábado. Jesus veio em defesa dos seus seguidores e apresentou o que Davi fizera violando uma lei, explicitamente cerimonial ou ritual, quando comeu os pães da proposição, alimento exclusivo para os sacerdotes. Ora os fariseus poderiam argumentar que Davi violara um preceito cerimonial ou ritual, e que os discípulos estavam violando um preceito moral, como entendem ser os supostos guardadores do sábado. Isso não aconteceu. Não houve qualquer argumentação dos fariseus nesse sentido.
Então poderemos devolver, aos supostos guardadores do sábado, as perguntas que nos foram feitas:
Podiam os sacerdotes no templo ter outros deuses diante de Deus e ficar sem culpa?
Podiam os sacerdotes no templo fazer imagem de escultura e ficar sem culpa?
Podiam os sacerdotes no templo tomar o nome de Deus em vão e ficar sem culpa?
Podiam os sacerdotes no templo desonrar pais e mães e ficar sem culpa?
Podiam os sacerdotes no templo matar e ficar sem culpa?
Podiam os sacerdotes no templo adulterar e ficar sem culpa?
Podiam os sacerdotes no templo furtar e ficar sem culpa?
Podiam os sacerdotes no templo dar falso testemunho e ficar sem culpa?
Podiam os sacerdotes no templo cobiçar a casa do próximo, sua mulher e outros bens e ficar sem culpa?
Naturalmente que a resposta dos supostos guardadores do sábado seria um não bem audível. Então, retornaríamos à pergunta com relação ao sábado:
Podiam os sacerdotes violar o sábado no templo e ficar sem culpa? É de estarrecer o dilema em que se acham os supostos guardadores do sábado. Titubeiam, se engasgam porque, embora reconheçam a autoridade de Jesus sobre o sábado, não lhes agrada responder que nove vezes responderam não e agora se veem biblicamente obrigados a responder: sim. Os sacerdotes podiam violar o sábado no templo e ficar sem culpa. Ora, o que levava os sacerdotes a violar o sábado no templo? Nada menos do que a preparação dos holocaustos que, segundo a Bíblia foram abolidos, de direito na cruz, quando Jesus bradou “Está consumado” (Jo. 19.30) e de fato, na destruição do templo templo no ano 70 AD, pelas tropas romanas comandadas pelo general Tito.
Se os holocaustos, na vigência da lei, eram mais importantes que a guarda do sábado e que os holocaustos terminaram na cruz, por um melhor sacrifício oferecido por Jesus, e que é permanente (Hb. 10.10-12), torna-se óbvio que o sábado terminou sua vigência na cruz, como declara Paulo: “Havendo riscado a cédula que era contra nós nas suas ordenanças, a qual de alguma maneira nos era contrária, e a tirou do meio de nós, cravando-a na cruz. Portanto ninguém vos julgue pelo comer, ou pelo beber, ou por causa dos dias festa (sábados anuais), ou da lua nova (dias sagrados mensais) e sábados (semanais), que são sombras das coisas futuras, mas o corpo é de Cristo” (Cl.2.14-17) – o grifo é nosso.