Papa Francisco e a ditadura

Desde que Jorge Mario Bergoglio foi escolhido como o novo papa, uma polêmica interessante tem rolado: teria Bergoglio apoiado a ditadura argentina (1976-83), inclusive denunciando outros religiosos que acabaram presos? Como o assunto é extremamente delicado, os dois lados têm sido extremamente passionais e, algumas vezes, irracionais. Como exercício histórico-reflexivo, vou pegar alguns dos comentários e argumentos mais utilizados e esmiuçá-los.

Federico Lombardi, diretor da Sala de Imprensa da Santa Sé, afirmou que “nunca houve uma acusação concreta ou crível [de que o papa Francisco auxiliou a ditadura argentina]”. Lombardi vai ter de me desculpar, mas o padre jesuíta Orlando Virgilio Yorio afirmou até o fim de sua vida que Bergoglio é que havia entregado ele e seu companheiro, Francisco Jalics, aos militares. Por que a acusação de Yorio, preso e torturado pela ditadura, não é crível?

É fácil contestar isso ao dizer que Francisco Jalics, o outro jesuíta preso pelos militares, falou que “É falso afirmar que nossa detenção foi provocada pelo padre Bergoglio.”. No entanto, avaliando essa afirmação com atenção, é possível perceber que essa não era sua declaração inicial. Jalics só eximiu o papa Francisco de culpa depois do dia 20 de março de 2013. No dia 15 e na época em que Jalics conduziu uma missa com Bergoglio, sua fala era simplesmente que eles estavam em paz, que estavam reconciliados. Pode-se acusar a Igreja Católica de muita coisa, mas não de ter pouca habilidade para mudar testemunhos.

“Ah, mas o artista e escultor argentino Adolfo Pérez Esquivel, prêmio Nobel da Paz em 1980, negou que o papa tenha colaborado com a ditadura.” OK, é muito fofo que o ganhador do Nobel da Paz tenha defendido o papa, mas qual a autoridade dele em afirmar que o papa Francisco não colaborou com a ditadura? Quais as provas? Se Esquivel afirmar que eu posso voar, eu devo começar a bater minhas asinhas? A afirmação dele é tão válida quanto a da moça que trabalha na loja de doces, não resolve nada.

Quanto às pessoas que Francisco teoricamente ajudou na época da ditadura, por favor, apresentem-nas. Onde elas estão? Se alguém tiver alguma para mostrar, por favor mostre, vou adorar saber o que lhes aconteceu. Mas, atenção, mostre com algum relato feito antes que Bergoglio virasse papa, algum relato dado logo depois que a ditadura acabou. Milagre relatado só depois que o santo subiu ao altar não cheira lá muito bem.

Por fim, cito que até Pérez Esquivel admite que o papa Francisco não lutou abertamente contra a ditadura. Vale dizer, nem durante a ditadura, nem depois do seu fim. Para um religioso que teve destaque após a ditadura –, tanto à frente da conferência episcopal, como sendo reitor da Faculdade de Filosofia e Teologia de San Miguel –, Bergoglio nunca fez críticas abertas ao regime e isso é bem fácil de constatar. Portanto, sem dúvida, as críticas sobre a omissão do papa nessa questão, são extremamente bem fundamentadas.

Extraído do site incautosdoontem.com em 03/08/2013

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