Misógino? A Mulher em Israel

Quando começamos a falar sobre o tratamento da mulher no Antigo Testamento, começa um pandemônio! As feministas acusam os escritores do Antigo Testamento de endossar todo tipo de sexismo, patriarcalismo (estruturas socialmente opressivas favorecendo o homem sobre a mulher), e até mesmo misoginia (ódio de mulheres). Misógino é um dos adjetivos que Richard Dawkins usa para descrever o Deus do Antigo Testamento.

Por que Sara se refere a seu esposo como “meu senhor” (Gn 18.12)? Por que as meninas hebraicas pertencem a “casa de seu pai” (e.g., Lv 22.13)? Por que uma mulher israelita permanece cerimonialmente imunda por somente 40 dias após dar à luz a um menino, mas oitenta dias após dar à luz a uma menina (Lv 12.2-5)? Por que a mulher não pode participar do sacerdócio em Israel? E quanto a todas aquelas concubinas? E quanto ao casamento por meio do levirato? Por que Deus permite a poligamia? O Antigo Testamento não endossa o dote, o que somente reforça a ideia da mulher como uma propriedade?

Neste capítulo nós examinaremos a igualdade fundamental entre homem e mulher no Antigo Testamento e algumas passagens que supostamente sugerem o contrário. Então, no próximo capítulo, iremos rever algumas passagens chave relacionadas com a poligamia (múltiplas esposas) e concubinas, assim como as passagens relacionadas que os críticos geralmente mencionam.[1]

Gênesis 1-2: O Ideal Original

Seja como for que entendemos as leis levíticas e as narrativas do Antigo Testamento com respeito às mulheres, Gênesis 1-2 nos aponta para a visão ideal da mulher, que está longe de ser uma atitude decaída, distorcida ou degradante. Deus criou macho e fêmea à sua imagem (Gn 1.26-27). Eva é tomada da costela de Adão (Gn 2.22), um quadro de igualdade e parceria, não de um superior a um inferior. O casamento deve ser uma parceria de iguais, e o sexo (a união em uma só carne) deve ser desfrutado dentro da segurança de um casamento heterossexual seguro e vitalício (Gn 2.24).

Embora Gênesis 1-2 apresenta o ideal de igualdade entre macho e fêmea, as leis com respeito à mulher em Israel assumem uma abordagem realista quanto às estruturas humanas caídas no antigo Oriente Próximo. Na legislação de Israel, Deus faz duas coisas: (1) ele trabalha dentro de uma sociedade patriarcal para mostrar a Israel um caminho melhor; e (2) ele provê muita proteção e controle contra os abusos direcionados às mulheres em condições reconhecidamente inferiores. Vemos exemplos de mulheres oprimidas no Antigo Testamento? Sim, e vemos muitos exemplos de homens oprimidos também! Em outras palavras, não devemos considerar estes exemplos negativos comoendosso de opressão e abuso.

A Igualdade da Mulher – de Vários Ângulos

Ler o Antigo Testamento revela duas características paralelas importantes: (1) estruturas sociais patriarcais nas famílias israelitas ao lado da (2) estima das mulheres como iguais, incluindo um grupo de matriarcas proeminentes e líderes femininas em Israel.

Por um lado, os pais tinham responsabilidade legal por suas famílias (muitas vezes atingindo 15 a 20 membros); isso incluía questões de herança de família, posse de propriedade, arranjos de casamento de filhos e filhas e ser o porta-voz para assuntos de família em geral. Por exemplo, quando uma filha ou uma esposa fazia um voto, tais promessas solenes deviam ser aprovadas pelo pai/esposo como um referencial legal na casa (Nm 30). Isso representa mais do que somente uma proteção legal para a esposa ou a filha, não obstante. Atitudes e ideias sociais implantadas são difíceis de eliminar, especialmente em lugares como o antigo Oriente Próximo. Atitudes patriarcais foram mantidas fortemente no antigo Oriente Próximo – atitudes que estavam muito distantes da linguagem de igualdade na criação. Gênesis 2.4 afirma que o homem devia deixar seus pais e se “unir” a sua esposa como uma parceira igual. Mas a queda afetou profundamente os relacionamentos humanos. Como resultado, Sara seguiu o costume do antigo Oriente Próximo de chamar seu esposo de “senhor [‘adon]” (Gn 18.12). Ela deu sua serva Hagar a Abraão para gerar um filho (Gn 16.3), uma prática comum no antigo Oriente Próximo. Mais tarde, o rei Abimeleque “tomou” Sara como sua esposa (Gn 20.2-3). E quando Sara deu à luz a Isaque, ela “deu um filho a Abraão” (Gn 21.2-3).

Por outro lado, estas atitudes patriarcais implantadas distorceram as muitas fortes afirmações bíblicas da dignidade e igualdade feminina. As mães/esposas mereciam honra igual a dos maridos/pais, e fortes matriarcas tanto ajudavam a liderar Israel como tinham influência dentro de suas famílias. Sim, o marido era o referencial legal para a família israelita, mas nós não devemos automaticamente assumir que a mulher considerava isto uma disposição opressiva. De fato, as esposas em muitos casamentos do Antigo Testamento eram, para todos os propósitos práticos, iguais e igualmente influentes em seus casamentos e ainda além (e.g., Pv 31).

De fato, muitas passagens falam mais de proteção e cuidado daquelas que geralmente as pessoas tiravam proveito, especialmente as viúvas ou as mulheres divorciadas. Deus está preocupado com a justiça para as viúvas e outros vulneráveis da sociedade, tais como os órfãos e os estrangeiros ou forasteiros não-israelitas. Deus advertiu severamente os pretensos opressores de que ele está do lado dos fracos e indefesos (Êx 22.22; Dt 10.18; 14.29; 24.17, 19; etc.).

Agora, as feministas disputariam a declaração que as mulheres/esposas israelitas eram consideradas iguais em personalidade e dignidade aos homens/maridos. Vamos abordar este ponto. Sim, as estruturas patriarcais influenciaram fortemente a mentalidade da sociedade israelita. Todavia, vemos afirmações inegáveis de igualdade no Antigo Testamento de perspectivas teológicas, históricas e legais.

Teológicas: a igualdade feminina é presumida nas seguintes passagens (ênfase adicionada):

Gênesis 1.27: “E criou Deus o homem à sua imagem; à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou”.

Gênesis 2.24: “Portanto deixará o homem o seu pai e a sua mãe, e apegar-se-á à sua mulher, e serão ambos uma carne”.

Êxodo 20.12: “Honra a teu pai e a tua mãe, para que se prolonguem os teus dias na terra que o Senhor teu Deus te dá”. (cf. 21.15; Dt 5.16; 21.18-21; 27.16).

Levítico 19.3: “Cada um temerá a sua mãe e a seu pai” (cf. 20.9).

Provérbios 6.20: “Filho meu, guarda o mandamento de teu pai, e não deixes a lei da tua mãe”.

Provérbios 18.22: “Aquele que encontra uma esposa, acha o bem, e alcança a benevolência do Senhor”.

Provérbios 19.26: “O que aflige o seu pai, ou manda embora sua mãe, é filho que traz vergonha e desonra”.

Provérbios 23.22: “Ouve teu pai, que te gerou, e não desprezes tua mãe, quando vier a envelhecer”.

Provérbios 23.25: “Alegrem-se teu pai e tua mãe, e regozije-se a que te gerou”.

Cantares de Salomão 6.3: “Eu sou do meu amado, e o meu amado é meu” (cf. 7.10).

Quando se trata de Gênesis 2.18, onde a esposa de Adão é chamada de uma “ajudadora [‘ezer]”, nós devemos lembrar que, ao invés de sugerir inferioridade, a mesma palavra é usada para Deus em todo lugar na Escritura (Sl 10.14; 30.10; 54.4). Poderíamos listar mais passagens sobre estes aspectos teológicos, mas já deu para entender.

Históricas: O Antigo Testamento está repleto de poderosas matriarcas que eram altamente valorizadas e exerciam grande influência. O testemunho dos autores do Antigo Testamento revela uma perspectiva que dificilmente pode ser chamada de misógina. Considere a seguinte lista para começar: Sara, Hagar, Rebeca, Raquel, Lea e Tamar (todas em Gênesis); as parteiras hebraicas Sifrá e Puá (Êx 1); as princesas egípcias (Êx 2); Miriã e as sete filhas de Jetro, incluindo Zípora, esposa de Moisés (Êx 2. 4, 15); as filhas de Zelofeade (Nm 27); Débora, Rute, Noemi, Abigail e Bateseba (Jz 4-5; Rt 1-4; 1Sm 25; 1Rs 1-2); e não vamos esquecer a excelente mulher de Provérbios 31. Estas vigorosas mulheres se aproximaram e exerceram influência junto dos melhores homens.

Legais: As leis morais e cerimoniais de Israel presumiam que as mulheres eram não somente iguais, mas também compartilhavam igual responsabilidade moral com os homens. Um autor escreve que o sistema de leis de impureza ritual de Israel é “bastante imparcial em seu tratamento do gênero”.[2] Alguns podem preocupar-se com a impureza cerimonial da menstruação, o que obviamente afeta a mulher e não o homem. Mas, como veremos, o homem tem os seus próprios problemas! E as leis de pureza também são endereçadas a eles (e.g., Lv 15.16-18, 32; 22.4; Dt 23.10).

Os aspectos morais – não apenas cerimoniais – das leis levíticas que tratam do incesto e do adultério (e.g., Lv 18, 20) se aplicam aos homens e às mulheres sem distinção. De fato, aqueles que alegam que cometer adultério contra a esposa do próximo de alguém era uma “violação de propriedade” em Israel estão incorretos. Ambos, homens e mulheres, podiam ser colocados à morte por adultério, mas, ao contrário do Código de Hamurabi, a lei do Antigo Testamento nunca exigia a pena de morte por violação de propriedade.[3]

Textos que (Supostamente) Promovem a Inferioridade Feminina

Agora, é hora de observar algumas daquelas passagens potencialmente embaraçosas que menosprezam as mulheres.

O Julgamento do Ciúme: Números 5

Vamos resumir o tema deste texto. Se um homem suspeitasse que sua esposa tivesse adulterado, ele poderia trazê-la diante do sacerdote para acusá-la. Neste caso, duas ou três testemunhas não estavam disponíveis (Dt 17.6-7); a única “testemunha” era a suspeita do marido que sua esposa o tivesse traído. Os críticos acusam que esta teria sido uma experiência apavorante: o abdômen da mulher traidora iria inchar e sua coxa iria murchar depois de beber a “água da amargura”. Os críticos levantam a questão, “Por que a mulher não poderia trazer seu esposo diante do sacerdote se ela suspeitasse que ele fosse culpado de adultério?”

Como se vê, os críticos escolheram um texto pobre para ilustrar a opressão da mulher. Por um lado, considere o contexto, o que nos dá toda a razão para pensar que essa lei era aplicada ao homem também. Antes e depois desta passagem, a legislação diz respeito a ambos, homens e mulheres: “israelitas” (Nm 5.2), “homem ou mulher” (Nm 5.6), “um homem ou uma mulher” (Nm 6.2). Não era somente prerrogativa do marido convocar este julgamento especial; a esposa podia também.

Segundo, esta corte sacerdotal era na verdade arranjada para proteção e defesa da mulher, não para humilhá-la diante do marido orgulhoso ou da multidão preconceituosa. Esta lei protegia a mulher da ira violenta do marido ou da ameaça arbitrária do divórcio para livrar-se de sua esposa sem qualquer prejuízo.[4] E se acontecia da mulher ser culpada, então ela justamente seria aterrorizada por um sinal sobrenatural que afetava o seu corpo. De fato, como com as mortes de Ananias e Safira na igreja primitiva (Atos 5), os israelitas teriam uma advertência preocupante sobre a atitude de Deus com respeito ao adultério.

Alguns críticos têm comparado este evento à “Provação do Rio” praticado nas culturas não-israelitas do antigo Oriente Próximo (Babilônia, Assíria, Suméria). Como isso funcionava? Quando a evidência criminal era inconclusiva, o acusado era jogado dentro de um poço de betume – isto é, um petróleo natural geralmente usado como selante e adesivo e como argamassa para tijolos. Na Suméria, esse “rio” de piche era a morada do deus Id (que significa “rio”). Algumas vezes estes “saltadores” e “mergulhadores”, que entravam “no deus”, eram vencidos pelo líquido e sua fumaça tóxica; a maioria sobrevivia (eles eram “cuspidos para fora” pelo deus do rio), mas ainda era um pesadelo a suportar. Se alguém fosse subjugado pelo “rio”, ele era culpado, visto que sua morte era o “julgamento” do deus do rio. Se ele sobrevivesse, ele era inocente e o acusador era culpado de fazer falsas acusações.[5]

Não obstante, há uma grande diferença entre esta “provação” e Números 5. A provação do rio era o tratamento geral para evidência criminal inconclusiva para todo o grupo. Entretanto, na lei mosaica, uma acusação não poderia ser estabelecida a menos que duas ou três testemunhas estivessem disponíveis; do contrário, o lado processante não tinha um argumento – fim da história. (No singular julgamento de ciúme em Números 5, embora as testemunhas não estivessem disponíveis, é compreensível que algumas pistas pudessem alertar um marido ou uma esposa de algo suspeito acontecendo com o cônjuge – comportamento estranho, reações irracionais, suores súbitos ou simplesmente a crença do marido de que não estava envolvido na concepção de um filho de sua esposa).

Segundo, se o acusado não pudesse nadar e sair do piche, ele pareceria culpado mesmo se fosse inocente! Não se uma esposa (ou esposo) israelita fosse falsamente acusada. Um sinal sobrenatural revelador era providenciado para provar a culpa. Terceiro, a provação do rio assumia a culpa até que a inocência fosse provada; no julgamento do ciúme, a corte assumia a inocência a menos que a culpa fosse exposta por um milagre divinamente concedido.

Impureza no Nascimento: Levítico 12.1-8

Alguns alegam que esta passagem implica em inferioridade feminina: a mulher é impura cerimonialmente por 40 dias (7+33 dias) após dar à luz a um menino, mas 80 dias (14+66 dias) após dar à luz a uma menina. Certamente, isso revela um status social inferior para as mulheres.

Novamente, não tão rápido! Várias explicações sensatas têm sido propostas. Alguns estudiosos argumentam que mais dias para a mulher, na verdade, indicam um tipo de proteção às mulheres ao invés de um sinal de inferioridade. Outros sugerem que o motivo pode ser para preservar a singularidade religiosa de Israel contra a religião canaanita, na qual as Em geral, a mais longa separação do tabernáculo (ou templo) da mãe judia após dar à luz a uma menina produzia uma declaração teológica e ética. No politeísmo do antigo Oriente Próximo, a forte ênfase era sobre os ritos de fertilidade, prostituição cúltica e a dramatização dos nascimentos de deuses e deusas. A distância entre o evento do nascimento e a adoração no templo – especialmente com bebês meninas – era cuidadosamente mantida.

Outra explicação plausível enfoca a fonte natural de impureza – a saber, o fluxo de sangue. O versículo 5 faz referência à razão: por causa do “sangue de sua purificação”. A mulher experimenta sangramento vaginal no nascimento. Todavia, tal sangramento vaginal é comum nas meninas recém nascidas também, devido à retirada do estrógeno da mãe quando a bebê deixa o ventre da mãe. Então nós temos duas fontes de impureza ritual com o nascimento de uma menina, mas somente uma com o nascimento de um menino.

Note também que quando o tempo da purificação é terminado, se “por um filho ou uma filha”, a mãe tem que trazer a oferta idêntica (seja um cordeiro, pombo ou uma rola); isto deve ser uma oferta de purificação (12.6) – não tecnicamente uma oferta de pecado – e seu propósito é retirar a impureza ritual (não moral).[6]

O Casamento pelo Levirato: Deuteronômio 25. 5-10

Se um homem morresse sem um filho para continuar o nome da família, então seu irmão solteiro poderia casar-se com a viúva a fim de manter o nome da família. Legalmente, o primogênito desta união era oficialmente o filho do marido morto. Visto que o primeiro marido estava morto, isso não era considerado incesto (relações sexuais com um parente). O termo levirato vem da palavra latina para “irmão do marido” ou “cunhado”, levir. Esta legislação soa muito estranha aos ouvidos modernos e certamente reflete o pano de fundo patriarcal. Uma prática similar era realizada pelos hititas. Sua lei declarava que se um homem tivesse uma esposa e então morresse, seu irmão devia tomar a viúva como sua esposa.[7]

Enquanto o casamento pelo levirato era um arranjo admitidamente patriarcal, devemos manter certas coisas em mente. Primeiro, se a viúva se casasse com o irmão do marido morto, isso ajudaria a manter a propriedade da viúva (que ela pode ter trazido para o casamento) dentro da família. Casando fora da família significava correr o risco de perdê-la.[8] Segundo, embora o homem pudesse recusar, isto era desencorajado. E se ele se recusasse a consentir, a própria viúva poderia exercer seu papel e seus direitos na vergonhosa “cerimônia da sandália”. Assim a viúva tinha uma certa vantagem natural neste arranjo.

É instrutivo colocar este cenário do levirato próximo da história das filhas de Zelofeade (Nm 27.1-11). No antigo Oriente Próximo, existiam leis patriarcais de primogenitura – o direito do primogênito de receber propriedade e herdar do pai a liderança da família. Deuteronômio 21.17 revela que isto significava uma dupla porção para o primogênito sobre seus irmãos. Todavia, a primogenitura é sutilmente anulada em vários pontos no Antigo Testamento. Embora a legislação mosaica operasse dentro das estruturas patriarcais do antigo Oriente Próximo, o Antigo Testamento revela um certo dinamismo e abertura a mudanças. As filhas do falecido sem filhos, Zelofeade, apelavam a Moisés com respeito às leis de herança que favoreciam os homens. À luz das circunstâncias particulares das mulheres, Moisés colocava esse assunto diante de Deus e o apelo das filhas era concedido.

Quando os humanos procuravam mudar as estruturas sociais à luz de uma compreensão moral mais profunda e uma determinação para mover-se em direção ao ideal, nós testemunhamos uma adaptação das estruturas do antigo Oriente Próximo. Mesmo mais cedo no Antigo Testamento, várias narrativas sutilmente atacam o arranjo da primogenitura; o mais jovem regularmente substitui o mais velho: Abel sobre Caim, Isaac sobre Ismael, Jacó sobre Esaú, José/Judá sobre Rubem.[9] Esta amostra bíblica revela uma ética revolucionária e mais democrática; embora não ideal, ela é uma melhora drástica sobre outras leis do antigo Oriente Próximo.[10]

A Esposa do seu Próximo: Êxodo 20. 17

“Não cobiçarás” é o décimo mandamento. Ele proíbe desejar o que legitimamente pertence a outro. O que estava incluso nesta proibição? A casa do próximo, esposa, servos ou servas, gado, jumento, e “qualquer coisa que pertence ao seu próximo”. Os críticos reclamam que a esposa é desfavoravelmente e inapropriadamente vista como uma propriedade – na mesma categoria que a casa, gado ou jumento do próximo!

Um grande problema: somente alguns mandamentos antes (Êx 20.12), os filhos são comandados a dar a sua mãe honra igual a do pai. A mãe devia ter autoridade igual sobre os seus filhos (confira a sequência de versículos citados antes neste capítulo). Outro grande problema: a mulher em Israel não era um item comercializável como casas, bois ou jumentos. Um fato ainda mais revelador é que em outras culturas no antigo Oriente Próximo, a mãe ficava com frequência sob o controle do filho.[11] Todavia, a lei mosaica apresenta um impressionante contraste a este respeito. Levítico 19.3 comanda um filho a reverenciar a mãe e o pai igualmente – e a mãe é até mesmo listada primeiro.

Nenhuma Sacerdotisa?

Por que a mulher não podia participar do sacerdócio? Por que isto era restrito apenas aos homens? Muitos críticos reclamam desse clube religioso exclusivamente masculino. Mas se você pensar sobre isso, a maioria dos homens israelitas era excluído também! Os sacerdotes tinham que ser da tribo de Levi e da linhagem de Arão; também, os homens não israelitas não eram permitidos ser sacerdotes.

Mas não é como se o Antigo Testamento automaticamente colocasse as mulheres e o sacerdócio em categorias opostas. A Bíblia fala abundantemente sobre sacerdotisas. Lá atrás em Gênesis, a própria Eva teve uma função sacerdotal no jardim do Éden; estudiosos bíblicos veem este local como um santuário que prefigura o tabernáculo (cf. Gn 2.12). Ambos, Adão e Eva, realizaram obrigações sacerdotais de adoração e culto a Deus, que caminharia e falaria com eles (Gn 2.15; 3.8).

Mais tarde, o sacerdócio foi estendido a toda a nação de Israel – homens e mulheres. Deus desejava que todos os israelitas se aproximassem dele como um “reino de sacerdotes” (Êx 19.6). No entanto, eles recusaram a subir a montanha; então Moisés foi no lugar deles (20.19, 21). Como resultado, um sacerdócio masculino oficial foi formado para funcionar dentro da estrutura tabernáculo/templo.[12]

Então, ter sacerdotisas não é inerentemente problemático ou antibíblico. De fato, o Novo Testamento reafirma isto: com a morte e ressurreição de Jesus, um novo Israel – a igreja – foi criado; ele é um sacerdócio santo e um reino de sacerdotes que oferecem sacrifícios espirituais a Deus (1Pe 2.5, 9; Ap 1.6; 5.10; 20.6).

Por que então nenhuma mulher no tabernáculo/templo do Antigo Testamento? A razão é esta: para prevenir a contaminação da adoração pura em Israel. Nas religiões do antigo Oriente próximo, os próprios deuses (e deusas) participavam de atos de sexo grotesco. Eles se envolviam em incesto (e.g., Baal com a sua irmã Anat). Eles participavam de bestialidade (e.g., Baal tendo sexo com uma novilha, que deu à luz a um filho). E eles se envolviam em orgias e seduções sexuais. E tudo isso sem um pingo de condenação![13]

As religiões do antigo Oriente Próximo geralmente incluíam rituais de culto à fertilidade, adoração de deusas e sacerdotisas (que serviam como esposas dos deuses). As prostitutas do templo existiam em abundância e a imoralidade sexual era realizada em nome da religião. Ter sexo com sacerdotisas significava união com a deusa que a pessoa adorava. De fato, sexo com uma prostituta do templo induziria Baal e sua consorte Aserá a ter sexo no céu, o que por sua vez resultaria em fertilidade em tudo à volta – mais filhos, mais gado, mais colheita. O sexo era deificado em Canaã e em outras culturas do antigo Oriente Próximo. O adultério era uma coisa boa contanto que o sexo fosse “religioso”.[14] Se nos tornamos no que adoramos, então não é surpreendente que a religião e a sociedade canaanita se corrompessem pelo “sexo sagrado”. Portanto, a prostituição no culto, tanto de homens quanto de mulheres, era proibida (cf. Gn 38.15, 22-30; Dt 23.18-19; também Oséias 4.14). Israel não devia imitar as nações cujas deidades se envolviam em imoralidade sexual.

Estas religiões eram tolerantes? Sim, de todas as formas erradas! Dos deuses para baixo, todos os tipos de desvios sexuais eram tolerados, mas em detrimento da sociedade e da família. De fato, muitos códigos legais no antigo Oriente Próximo permitiam atividades que minavam a integridade e estabilidade da família. Por exemplo, os homens eram permitidos se envolver em relacionamentos adúlteros com escravas e prostitutas. As leis de Lipit-Ishtar da Baixa Mesopotâmia (1930 a.C.) admitem como certa a prática da prostituição.[15] Na lei hitita (1650-1500 a.C.), “Se um pai e um filho dormir com a mesma escrava ou prostituta, isso não é uma ofensa”.[16] Como um aparte, a lei hitita até mesmo permitia a bestialidade: “Se um homem tem relações sexuais com um cavalo ou uma mula, isso não é uma ofensa”.[17]

A lei de Moisés buscava impedir que os israelitas glorificassem o adultério (ou coisa pior) em nome da devoção religiosa. Manter um sacerdócio todo masculino, então, ajudava a criar este tipo de distinção religiosa, assim como preservava a santidade do casamento. Não era uma censura contra a mulher. Era uma forma de preservar a pureza religiosa e a santidade do sexo dentro do casamento.

Mantenha em mente que em Israel os sacerdotes cumpriam três tipos de obrigações:

1. instrutivo, jurídico, administrativo;

2. profético (e.g., discernir a vontade de Deus por meio do lançamento de sorte, conhecido como o Urim e o Tumim);

3. cúltico (cerimônias/rituais religiosos)

No Israel do Antigo Testamento, mulheres como Miriã (Êx 15.20), Débora (Jz 4-5, especialmente 4.4) e Hulda (2Re 22.14) realizaram as duas primeiras funções como professoras, juízas e profetisas. A terceira área era proibida às mulheres – e a maioria dos outros homens. De fato, até mesmo os reis de Israel não podiam executar várias obrigações no culto (2Cr 26.16-21). Então, enquanto o patriarcalismo estava incorporado nas atitudes israelitas, isso não era o que impedia a mulher de ser sacerdotisa; antes, era um questão da identidade religiosa e bem-estar moral de Israel.

Nós poderíamos cobrir uma área maior do que esta, mas estamos confiantes de que estas respostas aos argumentos dos críticos irão ajudar a colocar estas passagens em contexto – e colocar um pouco dessa disputa para descansar.

Leitura Adicional

Davidson, Richard M. Flame of Yahweh: Sexuality in the Old Testament. Peabody, MA: Hendrickson, 2007.

Jones, Clay. “Why We Don’t Hate Sin so We Don’t Understand What Happened to the Canaanites: An Addendum to ‘Divine Genocide’ Arguments.” Philosophia Christi n.s. 11 (2009): 53-72.

Paul Copan

Tradução: Walson Sales

Revisão: Rafael Campos

Extraído do site arminianismo.com


Muito do material neste capítulo é tomado do livro de Richard M. Davidson, Flame of Yahweh: Sexuality in the Old Testament (Peabody, MA: Hendrickson, 2007).

Jonathan Klawans, Impurity and Sin in Ancient Judaism (New York: Oxford University Press, 2000), 39.

Daniel I. Block, “Marriage and Family in Ancient Israel”, em Marriage and Family in the Biblical World, ed. Ken M. Campbell (Downers Grove, IL: InterVarsity, 2003), 63.

John Goldingay, Old Testament Theology: Israel’s Life, Vol. 3 (Downers Grove, IL: InterVarsity, 2009), 376.

D. Hollander e M. Schwartz, “Annealing, Distilling, Recheating, and Recycling: Bitumen Processing in the Ancient Near East”, Paléorient 26, n. 2 (2000): 83-91; e Wolfgang Heimpel, ed., Letters to the King of Mari: A New Translation, with Historical Introduction, Notes and Commentary (Winona Lake, IN: Eisenbrauns, 2003), 272-75.

Davidson, Flame of Yahweh, 327.

Leis hititas §193. Um belo sumário sobre os crimes e punições relacionados às mulheres é Elisabeth Meier Tetlow,Women, Crime, and Punishment in Ancient Law and Society, vol. 1, The Ancient Near East (New York: Continuum, 2004).

J. G. McConville, Deuteronomy, Apollos Old Testament Commentary (Downers Grove, IL: InterVarsity, 2002), 369.

Robin Parry, Old Testament Story and Christian Ethics: The Rape of Dinah as a Case Study (Bletchley, UK: Paternoster, 2004), 68.

Gordon McConville, “Old Testament Laws and Canonical Intentionality,” em Canon and Biblical Interpretation, ed. Craig Bartholomew et al. (Grand Rapids: Zondervan, 2006), 263.

Davidson, Flame of Yahweh, 250.

John Sailhamer, The Pentateuch as Narrative (Grand Rapids: Zondervan, 1992), 51-59.

Entre os hititas, a bestialidade com certos animais tornava uma pessoa apenas ritualmente impura. Veja Westbrook,History of Ancient Near Eastern Law, 1.648-49.

Veja Douglas K. Stuart, Exodus, New American Commentary 2 (Nashville: B & H Publishing, 2008), 450-54; e Clay Jones, “Why We Don’t Hate Sin so We Don’t Understand What Happened to the Canaanites: An Addendun to ‘Divine Genocide’ Arguments”, Philosophia Christi n.s. 11 (2009): 53-72.

Leis de Lipit-Ishtar §§27, 30.

Leis hititas §194.

Leis hititas § 200a. Estranhamente, a lei hitita não permitia relações sexuais com uma vaca, ovelha, porco ou cachorro (§§187-88, 199).

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