Ainda falando sobre Malaquias 3.7-12, percebo o grande esforço da parte de alguns para tentar colocar sobre os sacerdotes o pecado de roubo repreendido pelo Senhor. Para esses interpretes, afirmar que o corpo sacerdotal é que estava roubando na sua forma de administrar os dízimos e não o povo que o retinha, é uma manobra hermenêutica para relegar o dízimo a um mandamento cerimonial e não moral. O objetivo por trás dessa interpretação é nivelar o dízimo aos sacrifícios, festas e diversos outros mandamentos de caráter ritual e simbólico, que segundo eles, os levitas estariam desvirtuando. Se o dízimo não é uma questão moral, fica fácil defender sua extinção. O grande problema para essa visão, é que justamente o capítulo 3 do livro de Malaquias demonstra a natureza moral de tal ordenança. Qualquer intérprete bíblico, até mesmo entre os dispensacionalistas mais radicais, concorda que nenhum dos princípios morais da lei foi extinto. Muito pelo contrário, alguns deles foram até mesmo ampliados no Novo Testamento. Com base nisso, compreendendo que a mensagem profética em questão é dirigida a toda a nação de Israel e não somente aos sacerdotes conforme já foi demonstrado no meu artigo anterior (https://www.cacp.app.br/para-quem-foi-escrito-malaquias-3-7-12/), vamos analisar o pecado pelo qual Deus está censurando seu povo:
“Roubará o homem a Deus? Todavia, vós me roubais e dizeis: Em que te roubamos? Nos dízimos e nas ofertas.” (Ml.3.9)
Deus não invoca a transgressão de uma lei cerimonial. Ele afirma que o povo estava incorrendo em pecado de roubo. Isso é inegavelmente uma questão moral. O Senhor aponta que o povo estava retendo o que lhe pertencia. Reter o que pertence à alguém é uma transgressão do oitavo mandamento, que diz claramente: “Não furtarás” (Ex.20.15). Nunca vi ninguém defender a abolição ou extinção desse princípio na Nova Aliança. Há sim, mandamentos cerimoniais regulando a forma como o dízimo deveria ser praticado no contexto do antigo Israel. São essas ordenanças que não tem força de lei, embora tenham valor didático para a igreja. A extinção da forma não significa extinção do princípio.
O princípio do dizimo traz consigo muito mais do que a manutenção das práticas religiosas da velha aliança. Dizimar é reconhecer a propriedade divina, por isso Deus se considera roubado, pela retenção de tais recursos por parte do povo. Quando dizimamos estamos na verdade dizendo: “Pai, tudo vem de ti, pois tudo é teu e do muito que o Senhor nos dá, devolvemos um pouco do que te pertence”. Tal reconhecimento é demonstração de gratidão. Vejam que que tanto Abraão quanto Jacó dizimam nesse espírito.
“Melquisedeque, rei de Salém, trouxe pão e vinho; era sacerdote do Deus Altíssimo; abençoou ele a Abrão e disse: Bendito seja Abrão pelo Deus Altíssimo, que possui os céus e a terra; e bendito seja o Deus Altíssimo, que entregou os teus adversários nas tuas mãos. E de tudo lhe deu Abrão o dízimo.” (Gn. 14.18-20)
“Fez também Jacó um voto, dizendo: Se Deus for comigo, e me guardar nesta jornada que empreendo, e me der pão para comer e roupa que me vista, de maneira que eu volte em paz para a casa de meu pai, então, o SENHOR será o meu Deus; e a pedra, que erigi por coluna, será a Casa de Deus; e, de tudo quanto me concederes, certamente eu te darei o dízimo.” (Gn.28.20-22)
Ambos dizimaram em espírito de gratidão pelas benção recebidas. As palavras de Jacó me chamam atenção, pois ele vincula seu dizimo à provisão cotidiana e à sua devoção pessoal. Ele se compromete em dar o dízimo à Deus. Veja, ele não fala de dar à homens, mas fala em dar ao próprio Deus. Jacó encara isso como parte da sua adoração. Vemos que fez parte da conversão desses dois homens a pratica do dízimo. Ao reconhecerem o Senhor como único e verdadeiro Deus, assim como a adoração e as orações, o dízimo esteve presente.
Vemos então, que diferente do que alguns movimentos querem provar, o dizimo não era um mero imposto religioso destinado somente a manter o culto israelita e seus sacerdotes. Também não era uma sombra das coisas vindouras tipificando o cumprimento de algum aspecto da redenção que deveria desaparecer após a morte e ressurreição de Cristo. Não se tratava também, de nenhum preceito civil para regular a sociedade israelita enquanto nação teocrática. É um princípio de honra e de mordomia para com Deus.
Muitos ainda irão insistir que essas palavras foram ditas para o antigo Israel e não para a igreja. Mas interessante que os mesmo que argumentam isso, não veem problemas em utilizar palavras de consolo ou de esperança encontrados no A.T, contextualizando-os para suas vidas cotidianas quando passam adversidades ou palavras de repreensão ao povo israelita para exortar pessoas em pecado. Vamos defender então que palavras tais como “Não temas que estou contigo, não te assombres porque sou teu Deus…” Foram ditas para Israel no contexto da lei e não para nós. Não é mais coerente?! Mas dirão que esses textos contem revelações do caráter e dos atributos de Deus e de como ele se relaciona com o ser humano. Correto! E Malaquias 3.7-12? É exatamente isso que quis demostrar com esse artigo. O princípio de mordomia que esse texto nos ensina.
Rev. Francisco Belvedere Neto