Deus determinou a queda de Adão?

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Um exemplo claro de que não é Deus quem determinou a Queda de Adão e o pecado está em Eclesiastes 7.29, que diz: “Eis aqui, o que tão-somente achei: que Deus fez ao homem reto, porém ele se meteu em muitas astúcias!” (Eclesiastes 7.29)

Ao invés de o autor inspirado dizer que Deus fez o homem reto e depois fez com que ele caísse (como creem os fatalistas), ele diz que Deus fez o homem reto (sem pecado) e o próprio homem que causou sua própria Queda, “se metendo em muitas astúcias”. Assim, vemos Deus determinando a criação de um Adão íntegro, e Adão, por sua própria concupiscência através de um pecado autocausado, se desvia. Deus determina a primeira parte (da retidão); o homem se desvia por conta própria.

Também teriam que negar o Salmo 145, que diz: “Justo é o Senhor em todos os seus caminhos, e santo em todas as suas obras” (Salmos 145.17)

O Senhor é santo em todas as suas obras. Mas lembre-se que os fatalistas dizem que Deus não determina apenas coisas boas, mas coisas más também – incluindo o pecado. Consequentemente, teriam que acreditar que a má determinação é um bom caminho e que o pecado é uma boa obra, se Deus determina o pecado e mesmo assim todas as suas obras são santas, e não “algumas”. Isso mudaria todo o nosso conceito de “pecado”, e nos traria para mais perto dos conceitos humanistas seculares de relativismo, onde tanto o pecado quanto o mal nada mais são que ilusões – o mesmo que a maioria dos calvinistas creem em relação ao livre-arbítrio[1].

Eliú também diz: “Portanto vós, homens de entendimento, escutai-me: Longe de Deus esteja o praticar a maldade e do Todo-Poderoso o cometer a perversidade!” (Jó 34.10)

Se Eliú fosse determinista, ele teria que crer que Deus não pratica a maldade, apenas a determina e a torna irrevogável, da mesma forma que não comete a perversidade, mas ordena a perversidade por meio de um decreto imutável antes da fundação do mundo. Deus não “pratica” nem “comete”, mas faz coisas muito piores, pois quem “pratica” e “comete” está apenas cumprindo aquilo que foi determinado por ele, não podendo nem mesmo agir de forma contrária!

O Salmo 5.4 diz claramente que “tu não és um Deus que tenha prazer na iniquidade, nem contigo habitará o mal” (Sl 5.4). Isso foi o que levou alguns fatalistas a entrarem em paradoxos e confusões mentais ao ponto de empregarem linguagem contraditória tal como: “Deus deseja o pecado indesejosamente”, pois a Bíblia diz claramente que Deus não tem prazer no pecado, mas os fatalistas creem que o pecado é determinado por Deus. Portanto, os deterministas (fatalistas) são levados a crer que Deus determina coisas que não tem vontade, que determina o mal e o pecado mesmo não gostando do mal e do pecado, que não tem prazer na iniquidade, mas a decreta assim mesmo.

Por fim, ficaria difícil entender bem o que os autores bíblicos queriam realmente dizer quando exclamavam que “Santo, Santo, Santo é o Senhor dos Exércitos; e toda a terra está cheia da sua glória” (Is 6.3), sendo que “aquele que sabe que deve fazer o bem e não o faz, comete pecado” (Tg 4.17), e Deus, sabendo que o certo é fazer o bem, determina o contrário, como acreditam os seguidores do fatalismo. É como disse Limborch: “O que pode ser mais desonroso, o que pode ser mais indigno de Deus do que torná-lo o autor do pecado, que é tão extremamente inconsistente com sua própria santidade?”[2]

Alguns contestam tudo isso se apegando a um texto bíblico que parece dizer que Deus criou o mal. Trata-se de Isaías 45.7, que diz: “Eu formo a luz, e crio as trevas; eu faço a paz, e crio o mal; eu, o Senhor, faço todas estas coisas” (Isaías 45.7)

Contudo, o original hebraico possui quatro palavras diferentes para o “mal”, e nem todas elas representam o mal moral. Aqui a palavra hebraica utilizada é ra, que tem como um de seus significados “calamidade”[3]. Essa interpretação é ainda mais reforçada pelo contexto, que traça um contraste entre paz e guerra, e não entre bem e mal. Se a tradução correta fosse por “mal”, o texto estaria contrastando o bem e o mal, e ficaria assim: “eu faço o bem e crio o mal”. Mas ele está em contraste com paz, o que significa que está no contexto de batalha, pois o inverso de paz é guerra.

Norman Geisler e Thomas Howe acrescentam no “Manual Popular de Dúvidas, Enigmas e ‘Contradições’ da Bíblia”: “Na sua forma temporal, a execução da justiça de Deus às vezes é chamada de ‘mal’, porque parece ser um mal aos que estão sujeitos a ela (cf. Hb 12:11). Entretanto, a palavra hebraica correspondente a ‘mal’ (rá) empregada no texto nem sempre tem o sentido moral. De fato, o contexto mostra que ela deveria ser traduzida como ‘calamidade’ ou ‘desgraça’, como algumas versões o fazem (por exemplo, a BJ). Assim, se diz que Deus é o autor do ‘mal’ neste sentido, mas não no sentido moral”[4]

A “desgraça” (NVI) ou “mal” (ARA) não é o mal moral, como o pecado, mas a guerra, em contraste com a paz. A Bíblia não é absolutamente contrária à guerra, contanto que seja por uma boa razão. Se os Aliados não tivessem lutado contra Hitler na Segunda Guerra Mundial, provavelmente o mundo teria sido dominado pelos nazistas e seus planos de exterminar todas as raças exceto a “raça pura” ariana teria sido levado à ação em todo o mundo. Isso é totalmente diferente de dizer que toda guerra é boa, ou de justificar guerras por motivos fúteis como mera conquista territorial ou roubar petróleo do Iraque.

Em resumo, Deus não determina o pecado e o mal moral nunca. Isso macularia a santidade divina e o tornaria um monstro de pior crueldade que o próprio diabo. Nenhum texto bíblico, quando analisado à luz do contexto, ensina o determinismo, e existem inúmeros textos que provam o contrário.

Nota: Adaptado de um texto enviado por e-mail da Apostila “Calvinismo X Arminianismo”.


[1] Em Isaías, Deus diz: “Ai dos que ao mal chamam bem, e ao bem mal; que fazem das trevas luz, e da luz trevas; e fazem do amargo doce, e do doce amargo!” (Is.5:20).

[2] LIMBORCH, Philip. A Complete System, or, Bordy of Divinity, trad. William James. London: John Darby, 1713. p. 372.

[3] De acordo com a Concordância de Strong, 7451.

[4] GEISLER, Norman; HOWE, Thomas. Manual popular de dúvidas, enigmas e ‘contradições’ da Bíblia. São Paulo: Editora Mundo Cristão, 1999.

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