As cinzas dele clamam contra João Calvino

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Você está por ler uma importante parte da História da Igreja do período da Reforma que foi escondida em nossos dias e que muito poucas pessoas estão cientes dos fatos. Prepare-se para um choque. Em 27 de outubro de 1553, João Calvino, o fundador do Calvinismo, teve a Miguel Servet (ou Michael Servetus em latim), o médico espanhol, queimado em uma estaca nas redondezas de Genebra por suas heresias doutrinárias![1] Portanto, o “codificador” da doutrina predestinacionista (Condenada como heresia no concílio de Orange em 529) violou o clamor da Reforma – “Sola Scriptura” – ao matar um herético sem justificativa bíblica. Este evento foi algo que Calvino já havia planejado muito tempo antes de Servet ser capturado, pois Calvino escreveu a seu amigo Farel, em 13 de fevereiro de 1546 (sete anos antes de Servet ser preso) e foi arquivado como dizendo:

“Se ele [Servet] vier [à Genebra], eu nunca o deixarei escapar vivo se a minha autoridade tiver peso.”[2]

Evidentemente, naqueles dias a autoridade de Calvino em Genebra, Suíça, tinha “peso” absoluto.  Por isso é que alguns se referiam a Genebra como a “Roma do Protestantismo”[3] e a Calvino como o “‘Papa’ Protestante de Genebra.”[4]

Durante o julgamento de Servet, Calvino escreveu:

“Eu espero que o veredicto seja pena de morte.”[5]

Tudo isso revela um lado de João Calvino que não é bem conhecido nem muito atraente, no mínimo!

Ficou óbvio que ele tinha ódio mortal armazenado em seu coração e estava disposto a violar a Bíblia para causar uma nova morte e da forma mais cruel.  Apesar de Calvino ter consentido com o pedido de Miguel Servet de ser decapitado, ele acabou aceitando o modo de execução empregado.

Porém, por que Calvino tinha o desejo de matar Servet?

“Para resgatar Servet de suas heresias, Calvino respondeu com a última edição de suas ‘Institutas da Religião Cristã,’ as quais Servet prontamente retornou com comentários insultantes. Apesar dos apelos de Servet, Calvino, que havia desenvolvido um intenso desagrado por Servet durante sua troca de correspondências, recusou-se a retornar qualquer dos materiais incriminatórios.”[6]

“Condenado por heresia pelas autoridades católicas, Servet escapou da pena de morte fugindo da prisão. No caminho para a Itália, Servet inexplicavelmente parou em Genebra, onde foi denunciado por Calvino e os Reformadores.  Ele foi pego no dia depois de sua chegada, condenado como herético quando se recusou a se retratar e, queimado em 1553 com a aparente tácita aprovação de Calvino.”[7]

“No curso de sua fuga para Viena, Servet parou em Genebra e cometeu o erro de assistir um sermão de Calvino. Ele foi reconhecido e preso depois do culto.”[8]

“Calvino teve ele [Servet] preso como herético. Condenado e queimado até a morte.”[9]

Entre o período em que Servet foi preso em 14 de agosto até sua condenação, Servet passou os seus dias restantes:

“… em um atroz calabouço, sem luz ou aquecimento, pouca comida e sem facilidades sanitárias.”[10]

Seja observado que os Calvinistas de Genebra colocaram madeiras semiverdes em torno dos pés de Servet e uma coroa de enxofre em sua cabeça.  Levou em torno de trinta minutos até que sua agonia terminasse em tal fogo, com o povo de Genebra em pé em volta para assistir ele sofrendo e morrendo lentamente!  Logo antes disso acontecer, os arquivos mostram:

“Farel caminhou ao lado do homem condenado e manteve uma constante enxurrada de palavras, em completa insensibilidade ao que Servet pudesse estar sentindo. Tudo que ele tinha em mente era extorquir do prisioneiro um reconhecimento de seu erro teológico – um chocante exemplo de uma desalmada cura de almas. Depois de alguns minutos disso, Servet cessou de responder e orou silenciosamente para si mesmo. Quando eles chegaram ao local de execução, Farel anunciou a multidão que assistia: ‘Aqui você vê o poder que Satanás possui quando ele tem um homem em seu poder. Este homem é um distinto estudioso e ele no entanto acreditava que estava agindo corretamente. Mas agora Satanás o possui completamente, como ele poderia possuir você, cairia então você em suas armadilhas.’

Quando o executor começou o seu trabalho, Servet sussurrou com voz trêmula: ‘Oh Deus, Oh Deus!’ O opositor Farel vociferou para ele: ‘Você não tem nada mais a dizer?’ Neste momento Servet respondeu para ele: ‘O que mais eu posso fazer, mas falar com Deus!’ Logo após isso, ele foi suspenso até a fogueira e amarrado às estacas. Uma coroa com enxofre foi colocada em sua cabeça. Quando as fagulhas foram acesas, um lancinante grito de horror brotou dele. ‘Misericórdia, misericórdia!’ ele clamou. Por mais de meia hora a horrível agonia continuou, porque a fogueira havia sido feita com madeira semiverde, que queima lentamente.  ‘Jesus, Filho do eterno Deus, tenha misericórdia de mim,’ o homem atormentado clamava do meio das chamas…”[11]

Apesar de que essencialmente tenhamos o mesmo acontecimento na conversão do ladrão arrependido (Lc 23.42, 43 cf. Lc 18.13) além da escritura que diz, “E acontecerá que todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo,” (At 2.21, Rm 10.13), Farel ainda considerava Servet um homem não salvo no fim da vida dele:

“Farel observou que Servet poderia ter sido salvo trocando a posição do adjetivo e confessando Cristo como o Eterno Filho em vez de Filho do Eterno Deus.”[12]

“Calvino havia então matado seu inimigo e não há nada que sugira que ele jamais tenha se arrependido deste crime. No ano seguinte ele publicou a defesa na qual mais insultos foram acrescentados a seu antigo adversário num linguajar dos mais vingativos e severos.”[13]

Assim como os católicos em 1415 queimaram João Hus[14] na estaca por razões doutrinárias, João Calvino, semelhantemente, teve Miguel Servet queimado na estaca. Mas será que doutrina era a única questão? Poderia haver outra razão, uma política?

“Como um ‘herege obstinado’ ele teve suas propriedades confiscadas sem dificuldades. Ele foi maltratado na prisão. É compreensível, portanto, que Servet tenha sido rude e insultante em sua confrontação com Calvino. Infelizmente para ele naquele momento Calvino estava lutando para manter o seu poder decadente em Genebra. Os oponentes de Calvino usaram Servet como um pretexto para atacar o governo teocrático reformista de Genebra. Tornou-se uma questão de prestígio – sempre um ponto delicado de qualquer regime ditatorial – para Calvino afirmar seu poder neste sentido. Ele se viu forçado a estimular a condenação de Servet de todas as formas possíveis ao seu alcance.”[15]

“Bastante irônico é que a execução de Servet não tenha realmente ajudado a fortalecer a Reforma de Genebra. Pelo contrário, como Fritz Barth apontou, isso ‘comprometeu gravemente o Calvinismo e colocou nas mãos dos católicos, a quem Calvino queria demonstrar sua ortodoxia cristã, a melhor arma para a perseguição dos Huguenotes, que não passavam de heréticos a seus olhos.’ O procedimento contra Servet serviu como modelo de um julgamento protestante herético… não se diferenciou em nenhum sentido dos métodos da Inquisição medieval… A Reforma vitoriosa, também, não foi capaz de resistir à tentação do poder.”[16]

Será que é possível um homem assim como João Calvino ter sido um “grande teólogo” e ao mesmo tempo ter agido desta forma repreensível e depois de tudo não demonstrar nenhum remorso? Caro leitor, você tem um coração que poderia, assim como o de João Calvino, queimar outra pessoa em uma estaca?

Vamos ilustrar isso de outra forma. Suponha que um homem da sua congregação com reputação de ser um líder espiritual capturasse o cachorro do seu vizinho, amarrasse ele a uma estaca, então usasse uma pequena quantidade de gravetos verdes para lentamente queimar o cachorro até a morte. O que você pensaria de tal pessoa, especialmente se depois de tudo isso ele não demonstrasse nenhum remorso? Você utilizaria ele para interpretar a Bíblia para você? Para tornar isso ainda pior para João Calvino, uma pessoa, diferentemente de um cachorro, foi criada à imagem e semelhança de Deus! Goste ou não, nós apenas podemos concluir dessa evidência que o coração de João Calvino estava em trevas e não iluminado, como resultado de seu ódio mortal por Servet. Na melhor das hipóteses, Calvino estava espiritualmente cego por seu ódio e portanto, espiritualmente impedido de distinguir com clareza a palavra da verdade.[17] Vejamos:

“Mas, quanto aos medrosos, e aos incrédulos, e aos abomináveis, e aos homicidas, e aos adúlteros, e aos feiticeiros, e aos idólatras, e a todos os mentirosos, a sua parte será no lago ardente de fogo e enxofre, que é a segunda morte.” (Ap 21.8)

“E nisto sabemos que o conhecemos; se guardamos os seus mandamentos. Aquele que diz: Eu o conheço, e não guarda os seus mandamentos, é mentiroso, e nele não está a verdade.” (Jo 2.3, 4)

“Todo o que odeia a seu irmão é homicida; e vós sabeis que nenhum homicida tem a vida eterna permanecendo nele.” (1Jo 3.15)

O grego adiciona uma importante palavra a 1Jo 3.15 que é às vezes omitida nas traduções em inglês. Esta palavra é “continuando” ou “permanecendo” (conforme nesta versão em português) que afirma que assassinos não têm vida eterna permanecendo neles.

Caro leitor, João Calvino era um obscurecido em seu entendimento espiritual (Ef 4.18). Jesus disse que nós “conhecemos” as pessoas por seus frutos (Mt 12.33) – quer seja João Calvino ou outra pessoa qualquer!  Igualmente o apóstolo João escreveu: “Nisto são manifestos os filhos de Deus, e os filhos do Diabo: quem não pratica a justiça não é de Deus, nem o que não ama a seu irmão.” (1Jo 3.10)

Por acaso você acha que Calvino praticou “justiça” com relação a Servet? Obviamente que não.  Alguns irão bradar e bufar quanto a esta conclusão, será que poderíamos biblicamente chegar a qualquer outra?

Nenhuma outra evidência é necessária para objetivamente determinarmos a condição espiritual de Calvino. Entretanto, dois outros homens podem ser brevemente mencionados:

“Há outros dois famosos episódios relativos a Jaques Gruet e Jerome Bolsec.  Gruet, a quem Calvino considerava um libertino, escreveu cartas críticas do Consistório e ainda mais sério, petições aos reis católicos da França para intervirem nas questões políticas e religiosas de Genebra. Com a colaboração de Calvino ele foi decapitado por traição. Bolsec publicamente desafiou os ensinamentos de Calvino sobre predestinação, uma doutrina que Bolsec, juntamente com muitos outros, achavam ser moralmente repugnante. Banido da cidade em 1551, ele se vingou em 1577 publicando uma biografia de Calvino que o acusava de avareza, conduta imprópria na administração das finanças e aberração sexual.”[18]

Como Lidar com um Herético?

Como se deve lidar com um herético ou falso mestre, digo, se alguém desejar seguir as diretrizes bíblicas? Paulo escreveu a Tito e tocou exatamente nessa questão, que primeiramente começou com o assunto da qualificação para o diaconato na igreja:

“Retendo firme a palavra fiel, que é conforme a doutrina, para que seja poderoso, tanto para exortar na sã doutrina como para convencer os contradizentes. Porque há muitos insubordinados, faladores vãos, e enganadores, especialmente os da circuncisão, aos quais é preciso tapar a boca; porque transtornam casas inteiras ensinando o que não convém, por torpe ganância.” (Tt 1.9-11)

Claramente, portanto, um falso mestre deve ser “calado,” mas não matando-o, como o fundador do Calvinismo fez, mas por refutá-lo com as Escrituras.  Este é o verdadeiro método cristão.

Se o exemplo de Calvino é o padrão, então, a próxima vez que um Testemunha de Jeová ou missionário Mórmon bater à sua porta, nós devemos então fisicamente dominá-lo, amarrá-lo a uma estaca e fazer tochas humanas com eles. Você consegue imaginar um cristão professo fazendo isso? Muito menos um reputado teólogo. Caso fosse feito, você se sentiria forçado a crer que tal pessoa era realmente salva e a aderir a suas peculiares características doutrinárias?

Da mesma forma, falsos mestres devem ser abertamente citados, como Paulo abertamente citou Himeneu e Fileto, que perverteram a fé de alguns dos cristãos que Paulo conhecia:

“E as suas palavras alastrarão como gangrena; entre os quais estão Himeneu e Fileto, que se desviaram da verdade, dizendo que a ressurreição é já passada, e assim pervertem a fé a alguns.” (2Tm 2.17, 18)

Isto também é um importante preventivo contra o veneno espiritual de um falso mestre.

Por que Calvino violou drasticamente essas diretrizes bíblicas?  Uma vez que as diretrizes de Paulo, inspiradas pelo Espírito Santo, (e o exemplo dele) quanto a como lidar com um herético foram diametralmente opostas por Calvino, seria seguro assumir que Calvino era governado por um espírito diferente do de Paulo?  Ainda mais, por que será que estes fatos sobre a vida de João Calvino são raramente mencionados em nossos dias? A resposta para esta pergunta é obvia.  Eles são tanto embaraçosos quanto são uma refutação aos calvinistas que orgulhosamente referem-se a si mesmos pelo nome dele! Muitas pessoas estão somente agora aprendendo sobre os chocantes fatos acerca do fundador do Calvinismo enquanto leem estes pela primeira vez!

“Nenhum evento tem maior influencia no julgamento histórico de Calvino que o papel exercido na captura e execução do medico espanhol e teólogo amador Miguel Servet em 1553. Este evento ofuscou todas as outras coisas que Calvino realizou e continua embaraçando os seus modernos admiradores.”[19]

“As cinzas de Servet clamarão contra ele a medida que os nomes desses dois homens ficarem conhecidos pelo mundo.”[21]

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[1] “Apenas por duas coisas, significativamente, Servet foi condenado – nomeando-se, Anti-trinitarianismo e Anti-pedobatismo (contra o batismo infantil),” Roland H. Bainton, Hunted Heretic (The Beacon Press, 1953), p. 207. [Comentário: Enquanto que Servet estava errado quanto à Trindade, com relação ao batismo infantil, Servet disse, “Trata-se de uma invenção do diabo, um engano do inferno para a destruição de todo o Cristianismo” (Ibid., p. 186.) Muitos cristãos de nossos dias poderiam apenas dar um “Amém” de coração a esta declaração feita sobre o batismo infantil.  Entretanto, é por isso, em parte, que Servet foi condenado a morte pelos Calvinistas!]

[2] Schaff-Herzog Encyclopedia of Religious Knowledge (Baker Book House, 1950), p. 371.

[3] The Wycliffe Biographical Dictionary of the Church (Moody Press, 1982), p. 73.

[4] Stephen Hole Fritchman, Men of Liberty (Reissued, Kennikat Press, Inc., 1968), p. 8.

[5] Walter Nigg, The Heretics (Alfred A. Knopf, Inc., 1962), p. 328.

[6] Steven Ozment, The Age of Reformation 1250-1550 (New Haven and London Yale University Press, 1980), p. 370.

[7] Who’s Who in Church History (Fleming H. Revell Company, 1969), p. 252.

[8] The Heretics, p. 326.

[9] The Wycliffe Biographical Dictionary of the Church, p. 366.

[10] John F. Fulton, Michael Servetus Humanist and Martyr (Herbert Reichner, 1953), p. 35.

[11] The Heretics, p. 327.

[12] Hunted Heretic, p. 214. [Comentário: Em nenhum lugar na Bíblia nós vemos este tipo de ênfase para a salvação de alguém. O ladrão que estava morrendo crucificado, o carcereiro de Filipo e Cornélio foram todos salvos através de uma mais básica fé confiante-submissa em Jesus.]

[13] Michael Servetus Humanist and Martyr, p. 36.

[14] João Hus atacou várias heresias católicas assim como a transubstanciação, a subserviência ao Papa, a crença nos santos, a eficácia da absolvição através dos padres, a obediência incondicional aos governantes terrenos e a simonia. Hus também fez das Sagradas Escrituras a única regra em matéria de religião e fé. Veja The Wycliffe Biographical Dictionary of the Church, p. 201.

[15] The Heretics, p. 326.

[16] Ibid., pp. 328, 329.

[17] Por exemplo, em claro contraste com o significado que Jesus deu à parábola do joio e do trigo (Mt 13.24-43) onde o Senhor disse, “o campo é o mundo”  (v. 38), João Calvino ensinou, “o campo é a igreja.” Veja o comentário de Calvino versículo a versículo do evangelho de Mateus.

[18] The Age of Reformation 1250-1550, pp. 368,369. O livro de Bolsec no qual ele acusa Calvino é citado como Histoire de la vie, moeurs, actes, doctrine, constance et mort de Jean Calvin… pub. a Lyon en 1577, ed. M. Louis-Francois Chastel (Lyon, 1875).

[19] Ibid., p. 369.

[20] Agostinho de Hipona (“Santo Agostinho”), o teólogo católico, foi um proponente anterior da predestinação do qual João Calvino tirou idéias.

[21] The Heretics, p. 328.

Autor: Dan Corner

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