Se quisermos entender o conceito de vingança na Bíblia, devemos abstrair a vingança divina da realizada por mãos humanas.
Vingança é uma ideia que parece não ter um valor ético positivo, mas no caso de Deus é diferente. Entendida à luz da santidade e justiça divinas, e contrabalançada com a misericórdia, ela é vista como uma necessidade.
Nunca devemos olhar para a vingança divina olvidando seu propósito de manifestar misericórdia. Devemos considerar tanto a severidade como a bondade de Deus (Romanos 11.22). Como afirmou certo teólogo “Ele é o Deus da ira a fim de que sua misericórdia faça sentido”. Deus se vinga sim, e essa sua atitude é moralmente correta, pois o faz como paladino do seu povo (Salmo 94) e para castigar, visando o bem, quem rompe sua aliança (Levítico 26.24-25; SI 119.71; Hb 12.5). Além disso, Deus não é um Papai Noel, passando a mão na cabeça de todos, mas também não é um déspota iracundo. Deus é paciente. Ele é tardio em irar-se e longânimo (Êxodo 34.6).
A ira divina não é como a humana, pois não leva Deus a ações insensatas, impulsivas ou imorais. É uma manifestação de seu caráter, uma ira justa. James Packer lembra que “a ira de Deus é sempre judicial. A essência da ação de Deus na ira é dar aos homens aquilo que escolheram”. Os homens é que escolhem a ira de Deus.
Deus, o perfeito Juiz, retribui o bem com o bem e o mal com o mal. Ele estaria contrariando seu caráter de santidade e justiça caso permitisse que o pecado e a rebeldia ficassem sem castigo. Então, por que às vezes Ele se demorar em executar seu juízo? Essa é uma outra questão. Não temos certeza de quando Ele executará, mas que o fará, sim. Além disso, o Juízo Final nada mais é que a execução final e definitiva do juízo de Deus sobre os ímpios.
Quanto à vingança por mãos humanas, interessante que das cerca de 70 vezes em que o vocábulo nãqam (vingança) aparece no Antigo Testamento, na maioria delas o homem é a causa secundária. Deus é que aparece como a origem (Números 31.2-3; Deuteronômio 32.35-41; Josué 10.13; Ezequiel 25.14). A Bíblia adverte que os homens não podem tomar a vingança nas próprias mãos (Levítico 19.18). O próprio Deus (Deuteronômio 32.35) e Paulo (Romanos 12.19) advertem contra termos um espírito vingador.
Por causa de textos que falam de um ódio justo contra os inimigos de Deus, tendemos a achar que o Antigo Testamento ensina que sempre se deve odiar os inimigos. Paulo, ao citar Provérbios 25.21-22 (Romanos 12.20), mostra o contrário. Os antigos hebreus, como muitos cristãos hoje, aplicaram erradamente a doutrina da vingança divina, usando-a como desculpa para alimentar seus sentimentos vingativos. Jesus, na verdade, referendou Levítico 19.18.
Quanto à instituição do vingador de sangue, era algo de natureza estritamente legal, que supria uma necessidade de justiça numa sociedade tribal. O olho por olho não era para ser praticado por particulares, mas só depois de um processo judicial e com a sanção divina. As cidades de refúgio representaram um aperfeiçoamento, proporcionando justiça em casos de homicídio involuntário (Números 35.9-28).
Evangelista Silas Daniel
Jornalista e Escritor