Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna. Jo 3.16
Um dos mais belos e conhecidos versos das Escrituras se transformou num ponto de feroz disputa teológica. A abrangência do amor de Deus e da obra de Cristo estaria restrita aos eleitos apenas? Ou seria ilimitada, como parece ser o caso de Jo 3.16?
Para Owen, o mundo em Jo 3.16 significa “os eleitos de Deus espalhados pelo mundo entre todas as nações.”[1] R. K. McGregor Wright conclui dizendo que, visto que o propósito de Deus é salvar um grupo específico, os crentes, o verso deve significar que Cristo foi enviado para expiar os pecados dos crentes apenas.[2] (Para alguns Deus ama os eleitos e odeia o resto do mundo)
Como a palavra ‘mundo’ é usada em diferentes sentidos nas Escrituras, o que pode definir o significado da palavra em Jo 3.16 é o seu contexto. E o contexto não favorece qualquer limitação, pelas seguintes razões:
1 – É duvidoso se em algum lugar das Escrituras a palavra ‘mundo’ é usada no lugar de ‘os eleitos de Deus espalhados pelo mundo.’
2 – Se o mundo que Deus amou é o ‘mundo dos eleitos,’ então é possível que alguns eleitos não creiam e pereçam. Pois a afirmação ‘Deus amou os eleitos de tal maneira que deu o Seu Filho unigênito, para que todo eleito que nele crer não pereça, mas tenha vida eterna,’ sugere que alguns eleitos possivelmente não irão crer. A própria construção da frase nos conduz a esta conclusão. Se crer, não irá perecer; por implicação, se não crer, irá perecer. Se for afirmado que ‘mundo’ se refere aos eleitos e ‘todo aquele’ a toda a humanidade, respondo que o texto ficaria sem coerência, pois o amor de Deus pelos eleitos não seria uma razão suficiente para toda a humanidade crer em Cristo. O ‘mundo’ não pode ser diferente do ‘todo aquele’ pois o que diz respeito ao primeiro é o incentivo para o segundo.
3 – O versículo seguinte torna qualquer limitação impossível: “Porque Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para que condenasse o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por ele,” v. 17. Se limitarmos o ‘mundo’ aos ‘eleitos,’ faremos João dizer que Deus não enviou o seu Filho para condenar aqueles que Ele escolheu para salvação, o que seria uma afirmação vazia, estranha, e completamente desnecessária. Que necessidade há de dizer que Deus não enviou Cristo para condenar os que Ele próprio escolheu salvar? Se for sugerido que a palavra ‘mundo’ passou a ter outro significado aqui, quais as evidências?
Ainda assim, alguns insistem numa limitação. Arthur Pink, por exemplo, após dizer que temos que verificar o significado da palavra ‘mundo’ em Jo 3.16 “através de um estudo cuidadoso do contexto,” acrescenta:
O assunto principal de Jo 3.16 é Cristo como o dom de Deus. A primeira oração nos conta o que levou Deus a “dar” seu Filho unigênito: seu grande “amor.” A segunda oração nos informa para quem Deus “deu” seu Filho, que foi para “todo aquele que crê.” E a última oração revela por que Deus “deu” seu Filho (seu propósito), que é que todo aquele que crê “não pereça mas tenha a vida eterna.”[3]
Parece que estamos sendo enganados aqui. Em primeiro lugar, porque a segunda oração não nos informa para quem, mas com que propósito Deus enviou seu Filho: “para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna.” Um estudo realmente cuidadoso verificaria que a palavra ‘para’ (no grego, hina) em ‘para que todo aquele que nele crer’ indica propósito, objetivo, intuito. Em segundo lugar, porque ‘todo aquele (que)’ é uma locução pronominal indefinida, e é usada num sentido vago, e, como o próprio nome diz, indefinido. Fazê-la significar um grupo definido, os crentes, não é apenas improvável, é gramaticalmente impossível.
Portanto, quando todas estas coisas são levadas em consideração, impor algum limite à palavra ‘mundo’ em Jo 3.16 é uma decisão puramente arbitrária. Não há nenhuma insinuação no contexto que possa favorecer esta idéia. Nada, senão a insistência de querer encaixar à força uma doutrina teológica nas Escrituras, é capaz de levar alguém a ainda tentar limitar o mundo que Deus tanto amou.
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[1] John Owen, Por quem Cristo Morreu?, p. 71.
[2] R. K. McGregor Wright, A Soberania Banida, p. 175.
[3] Arthur Pink, The Sovereignty of God, Apêndice 3. O livro traduzido para o português (Deus é Soberano) pela Editora Fiel segue uma versão que omite alguns capítulos e apêndices, não por coincidência, os mais infames.
Extraído de Arminianismo.com em 04/07/2014